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«Considero que um tema ético importante é aquele que toda a pessoa que pensa um pouco tem de enfrentar. (...) Quais são as nossas responsabilidades pessoais para com os pobres? Teremos alguma justificação para tratar os animais como se não passassem de máquinas que produzem carne para a nossa alimentação? Será legítimo usarmos papel nao reciclado? E, em todo o caso, porque nos havemos de preocupar em agir de acordo com princípios morais? Outros problemas, como o aborto e a eutanásia, não representam felizmente decisões quotidianas que a maior parte de nós tenha de tomar; mas são problemas que podem surgir na nossa vida a qualquer momento. São temas de preocupação actual sobre os quais todas as pessoas que participam no processo de tomada de decisões da nossa soiedade precisam de reflectir.»

Peter Singer, Ética Prática, Gradiva, Filosofia Aberta, Lisboa, Setembro 2002
 


 

«Tenho vergonha daquilo que sou. A vergonha realiza assim uma relação íntima de mim comigo: descobri pela vergonha um aspecto do meu ser. E, contudo, ainda que certas formas complexas e derivadas da vergonha possam aparecer no plano reflexivo, a vergonha não é originalmente um fenómeno de reflexão. Com efeito, quaisquer que sejam os resultados que se possam obter na solidão, a prática religiosa da vergonha, na sua estrutura primeira é vergonha diante de alguém. Acabo de fazer um gesto desajeitado ou vulgar: este gesto cola-se a mim (...). Mas eis que, subitamente, levanto a cabeça: alguém estava lá e viu-me. Apercebo-me subitamente de toda a vulgaridade do me gesto e tenho vergonha. É certo que a minha vergonha não é reflexiva (...). Ora, o outro é mediador indispensável entre mim e eu próprio: tenho vergonha de mim, tal como apareço a outrem. E, pela própria aparição de outrem, fiquei em posição de fazer um juízo sobre mim mesmo como sobre um objecto, porque é como objecto que eu apareço a outrem. (...) A vergonha é, por natureza, reconhecimento. Reconheço que sou, como outrem me vê (...).
Não se é vulgar sozinho. (...).
Assim, a vergonha é vergonha de si diante de outrem; estas duas estruturas são inseparáveis. Mas, ao mesmo tempo, tenho necessidade de outrem para apreender plenamente todas as estruturas do meu ser, o para-si reenvia ao para-outrem.»

Jean-Paul Sartre, L’ être et le néant, Gallimard, Paris, 1968, pp. 275,277